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09 de junho de 2026EstratégiaRicardo Zago10 min

Tokenização RWA no Brasil em 2026: por que o país lidera a revolução blockchain institucional

Resumo Executivo

O Brasil construiu o mercado de tokenização de RWA mais maduro do ponto de vista operacional do mundo. Com R$ 3,76 bilhões em ativos tokenizados até maio de 2026, grandes bancos como Itaú e ABC utilizam ativamente a tecnologia blockchain. Analisamos as cinco vantagens estruturais que impulsionam esse crescimento de 1.130% e o caminho de integração para o capital institucional global.

Por anos, a tokenização de ativos reais foi descrita como o futuro das finanças. No Brasil, ela se tornou o presente.

Em janeiro de 2026, o mercado de tokenização de RWA no Brasil registrou volume total de emissões de R$ 1,50 bilhão — ante apenas R$ 122 milhões doze meses antes. Um crescimento de 1.130% em um único ano. Em maio de 2026, o mercado total havia superado R$ 3,76 bilhões, com players institucionais incluindo Banco Itaú, Banco ABC, Banco BV e Milenio Capital criando e negociando ativos tokenizados em redes blockchain como parte padrão de suas operações.

Isso não é projeto piloto. Não é experimento em sandbox. O Brasil construiu o mercado de tokenização de RWA operacionalmente mais maduro do mundo, e o capital institucional global está começando a perceber.

Para empresas brasileiras que ainda não estruturaram sua posição nesse mercado — como emissoras de ativos tokenizados, como investidoras em instrumentos tokenizados, ou como tomadoras de crédito via estruturas blockchain — o momento de agir é agora, antes que a janela de vantagem competitiva se feche.

2. Como o Brasil Chegou Aqui: A Base Regulatória

A velocidade do desenvolvimento do mercado de RWA brasileiro não é acidental. É o resultado direto de uma estratégia regulatória deliberada que colocou o Brasil em posição singular entre as grandes economias.

Enquanto os Estados Unidos passaram grande parte de 2022 a 2024 em regulação cripto baseada em enforcement — com a SEC movendo casos contra grandes exchanges e o Congresso travado em legislação de stablecoins — os reguladores brasileiros tomaram o caminho oposto. O BCB e a CVM trataram blockchain como infraestrutura financeira a ser integrada ao sistema existente, não contida fora dele.

Três marcos regulatórios construíram a fundação:

  • Lei de Ativos Virtuais (Lei 14.478/2022) estabeleceu a categoria VASP, designou o BCB como regulador primário para prestadores de serviços de ativos virtuais e deu ao mercado a segurança jurídica necessária para atrair participação institucional. Bancos e gestoras que estavam observando à margem tiveram uma base regulatória clara para agir.
  • Resolução CVM 88 governa ofertas de valores mobiliários tokenizados, fornecendo um caminho regulado para emissões direcionadas a investidores — com teto de R$ 15 milhões anuais para ofertas simplificadas e trilha de registro formal para transações maiores. Isso criou a rampa de acesso para instrumentos de crédito tokenizados que hoje impulsionam a maior parte do volume de RWA no Brasil.
  • Resolução BCB 521 (fevereiro de 2026) integrou stablecoins ao marco cambial, colocando transações internacionais com stablecoins sob supervisão formal. Para investidores internacionais, isso significa que a camada cambial das transações de RWA tem respaldo regulatório explícito — um requisito crítico para due diligence institucional.

O resultado é um marco onde a tokenização existe dentro do sistema financeiro regulado, não paralela a ele. Essa distinção é o que separa o Brasil de qualquer outro mercado emergente que reivindica liderança em RWA.

3. Os Números: O que Está Sendo Tokenizado

O mercado de RWA brasileiro não está concentrado em uma única classe de ativo. Ele abrange o espectro completo do sistema financeiro do país, com vários segmentos já em escala institucional.

Recebíveis do Agronegócio (CRA)

O Brasil é o maior exportador mundial de soja, açúcar, café e carne bovina. O setor agropecuário gera volumes enormes de recebíveis — contratos entre produtores e compradores que representam fluxos de caixa futuros com alta previsibilidade e garantias sociais.

A tokenização de CRAs reduziu dramaticamente o tempo de liquidação e o risco de contraparte que tradicionalmente dificultava o acesso de investidores institucionais a esses instrumentos. O volume total de emissões de RWA no Brasil foi de R$ 1,50 bilhão em janeiro de 2026 — crescimento de mais de 1.130% em um ano — com parcela significativa concentrada em recebíveis agrícolas.

Crédito Corporativo e Financiamento de Recebíveis

Instituições financeiras estão criando e negociando regularmente versões digitais de ativos como empréstimos corporativos e duplicatas em redes blockchain. A Liqi Digital Assets, em parceria com a XDC Network, superou US$ 100 milhões em RWAs tokenizados no início de 2026, com meta de atingir US$ 500 milhões até o final do ano.

Paralelamente, a Rayls e a AmFi anunciaram parceria para digitalizar mais de US$ 1 bilhão em empréstimos privados até meados de 2027 — reforçando a liderança do Brasil em tokenização de crédito institucional.

Recebíveis de Cartão de Crédito

A iniciativa GemStone da BlackOpal tokeniza recebíveis de cartão de crédito, oferecendo aos investidores rendimento anualizado de 13%, com aporte de US$ 200 milhões da Mars Capital Advisors. Essa estrutura transforma fluxos de pagamento de lojistas em instrumentos de renda variável acessíveis a capital institucional.

Recebíveis Imobiliários (CRI)

CRIs tokenizados — instrumentos de dívida lastreados em fluxos de caixa imobiliários — oferecem aos investidores exposição ao mercado imobiliário comercial brasileiro com liquidez de mercado secundário que estruturas tradicionais não conseguem oferecer. As taxas de vacância de imóveis comerciais em São Paulo vêm caindo consistentemente desde 2024, tornando instrumentos lastreados em CRI cada vez mais atrativos para capital em busca de rendimento.

Créditos de Carbono (PL 3.434/2024)

Com o projeto de lei de tokenização de ativos ambientais brasileiros nas etapas finais do processo legislativo, o segmento de créditos de carbono representa a próxima grande onda de emissões de RWA brasileiros. O Brasil detém a maior floresta tropical do mundo e tem capacidade de gerar centenas de milhões de toneladas de créditos de carbono verificáveis anualmente — uma escala que nenhum outro país isolado consegue replicar.

4. Por que o Brasil Lidera: Cinco Vantagens Estruturais

Vantagem 1
Profundidade
Ecosistema sofisticado de securitização doméstica facilita upgrade incremental.
Vantagem 2
Adoção de Bancos
Reguladores do país trabalham diretamente com maiores bancos e emissores locais.
Vantagem 3
Spreads e Juros
Cenário de juros elevados gera prêmios estruturalmente superiores aos globais.

1. Profundidade do mercado de crédito: O Brasil tem um dos mercados de crédito domésticos mais profundos do mundo em relação ao PIB, com um ecossistema sofisticado de securitizadoras, bancos de investimento e gestoras reguladas que já tinham a infraestrutura para emitir, administrar e distribuir instrumentos de dívida. A tokenização foi um passo incremental para essas instituições, não uma transformação fundamental.

2. Adoção institucional desde o primeiro dia: A abordagem do Brasil se destaca porque envolve os reguladores do país trabalhando diretamente com seus maiores bancos e empresas de crédito para tornar a tokenização parte padrão das finanças modernas. Essa adoção institucional de cima para baixo deu ao mercado credibilidade que mercados crypto-nativos em outros países ainda lutam para alcançar.

3. Infraestrutura blockchain de nível empresarial: A tokenização de RWAs no Brasil frequentemente utiliza blockchains de nível empresarial como a XDC Network, construída para empresas, oferecendo finalidade de transação garantida, taxas baixas e previsíveis, compatibilidade com ISO 20022 e segurança robusta.

4. Ambiente de juros elevados: O ambiente de taxas de juros do Brasil — com a Selic consistentemente entre as mais altas das grandes economias — significa que instrumentos de renda fixa brasileiros tokenizados oferecem rendimentos estruturalmente superiores aos de instrumentos equivalentes em mercados desenvolvidos.

5. Base ampla de investidores domésticos: O Brasil tem mais de 25 milhões de detentores de criptoativos, uma das maiores bases absolutas do mundo. Essa base de investidores de varejo e profissionais domésticos fornece liquidez e formação de preço para instrumentos tokenizados que a maioria dos mercados emergentes não consegue replicar.

5. O Desafio da Interoperabilidade: Conectando o Brasil ao Capital Global

À medida que olhamos para o restante de 2026, a narrativa em torno dos RWAs provavelmente se concentrará em interoperabilidade. Com a meta de US$ 500 milhões à vista, o próximo desafio será conectar esses ativos brasileiros tokenizados a protocolos DeFi globais e pools de liquidez institucional em Londres, Nova York e Singapura.

Este é o desafio definidor para a próxima fase do mercado de RWA do Brasil. A infraestrutura para emissão está madura. O marco regulatório está em vigor. O que resta é a infraestrutura que conecta os mercados de crédito tokenizados de São Paulo ao capital institucional em outras jurisdições.

Três barreiras limitam atualmente o fluxo transfronteiriço:

  • Conversão cambial e IOF: A Resolução BCB 521 classificou as transações transfronteiriças denominadas em stablecoins como operações de câmbio, sujeitas a 3,5% de IOF. Para investidores internacionais, isso cria um custo de transação que precisa ser precificado nas expectativas de retorno.
  • Reciprocidade de KYC/AML: Os requisitos regulatórios brasileiros para identificação de investidores não satisfazem automaticamente os requisitos equivalentes nos EUA ou na UE. Estruturas transfronteiriças precisam de frameworks de conformidade dupla que satisfaçam ambos os reguladores simultaneamente.
  • Padronização da moeda de liquidação: A ausência de um CBDC brasileiro totalmente operacional (Drex) significa que a liquidação transfronteiriça depende de stablecoins ou do sistema bancário correspondente tradicional.

6. O que as Empresas Podem Fazer Agora

Apesar dos desafios de interoperabilidade, o mercado de RWA no Brasil passou da construção de infraestrutura para a execução. O acesso ao mercado brasileiro de RWA está disponível para investidores qualificados por meio de várias estruturas:

  • Co-investimento em fundos regulados: FIAGROs e FIDCs que possuem ativos tokenizados fornecem aos investidores um ponto de entrada regulado. A estrutura do fundo cuida do compliance regulatório brasileiro.
  • Acesso direto a plataformas CVM 88: As plataformas reguladas pela Resolução CVM 88 permitem que investidores qualificados acessem emissões tokenizadas individuais com rendimentos atrativos.
  • Estruturas de joint venture: Para investidores institucionais que desejam implantar capital significativo em classes de ativos específicas, as estruturas de JV com emissores brasileiros fornecem exposição direta com experiência operacional local.

7. Como a Avalon Atua Nesse Mercado

A Avalon trabalha com empresas brasileiras e internacionais mapeando oportunidades na interseção onde o apetite de capital encontra a complexidade regulatória brasileira — estruturando os instrumentos jurídicos, frameworks de compliance e estratégias de go-to-market que tornam a participação institucional viável.

8. Perguntas Frequentes sobre Tokenização de RWA no Brasil

  • O que é tokenização de RWA?
    A tokenização de ativos reais (RWA — Real World Assets) é o processo de representar a propriedade ou os direitos econômicos sobre um ativo físico ou financeiro por meio de tokens digitais registrados em blockchain. Os ativos mais tokenizados no Brasil são recebíveis agrícolas, imobiliários, crédito corporativo e ativos ambientais.
  • Como o investidor internacional pode acessar os RWAs brasileiros?
    Investidores internacionais podem acessar o mercado de RWA brasileiro por meio de fundos regulados (FIAGRO, FIDC), plataformas autorizadas pela CVM 88 e parcerias estruturadas ou joint ventures.
  • Qual é o papel da regulação da CVM e do Banco Central?
    A Lei 14.478/2022, a Resolução CVM 88 e a Resolução BCB 521 fornecem uma base de conformidade sólida para que as operações ocorram de forma transparente e segura dentro do sistema financeiro.
Linha do tempo dos marcos da tokenização de RWA no Brasil de 2023 a 2026 com principais desenvolvimentos regulatórios e institucionais
Ilustração Técnica / Apoio
Ricardo ZagoRZ

Ricardo Zago

Consultor e Co-fundador da Avalon Blockchain Consulting · Professor de Blockchain na FIAP · Mentor de Startups

Ricardo Zago atua na estruturação de negócios em blockchain, tokenização de ativos reais e stablecoins para o mercado corporativo. Desenvolve projetos na interseção entre mercados tradicionais e infraestrutura descentralizada, com foco em viabilidade regulatória e geração de resultado para empresas brasileiras.

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