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28 de julho de 2026Estratégia CorporativaRicardo Zago8 min

Blockchain Permissionada: A Lição do DREX para Empresas

Pontos Principais

  • Desligamento da DLT no DREX: Em 10 de novembro de 2025, o Banco Central desligou a infraestrutura de registro distribuído do DREX após dois anos de testes com a Hyperledger Besu, uma blockchain permissionada.
  • Motivação de Privacidade e Sigilo: O motivo declaredo não foi custo nem escalabilidade: as soluções testadas não atenderam aos requisitos de privacidade e sigilo bancário do sistema financeiro brasileiro.
  • Mudança de Abordagem: O projeto continua ativo, mas com arquitetura tecnológica agnóstica — o BC decidiu definir primeiro os casos de uso e só depois escolher a tecnologia.
  • Roteiro para Empresas: Para empresas avaliando blockchain corporativa, o caso oferece um roteiro raro: um piloto de escala nacional, com orçamento público e 16 participantes institucionais, documentado publicamente até o desligamento.

Se você está avaliando blockchain permissionada para sua empresa, existe hoje um caso brasileiro que vale mais do que qualquer white paper de fornecedor: o Banco Central testou exatamente essa arquitetura, com recursos e prazo que a maioria das empresas nunca terá, e decidiu desligá-la.

Este artigo explica o que é blockchain permissionada, por que o DREX abandonou a sua, e — o mais importante — quais perguntas isso levanta para qualquer projeto corporativo de blockchain.

O Que É Blockchain Permissionada

Blockchain permissionada é uma rede em que apenas participantes autorizados podem acessar, validar transações ou operar nós. É o oposto de redes públicas como Bitcoin ou Ethereum, onde qualquer pessoa pode participar sem autorização prévia.

A distinção prática que importa para empresas não é "pública versus privada" — é quem controla o acesso e quem valida:

  • Rede pública (não permissionada): qualquer um lê, qualquer um valida. Máxima transparência, mínima privacidade.
  • Rede permissionada: um grupo definido de participantes valida. Governança controlada, auditoria simplificada, e — em tese — mais privacidade.
  • Modelo híbrido (público-permissionado): infraestrutura pública para leitura, permissionada para escrita. Ganhou tração entre instituições que priorizam governança e compliance sobre descentralização pura.

A promessa da rede permissionada para o mundo corporativo sempre foi essa: manter os benefícios de um registro compartilhado e imutável, sem expor dados a qualquer participante anônimo da internet.

O DREX foi o teste mais ambicioso dessa promessa no Brasil.

O Caso DREX: Cronologia de Uma Decisão Técnica

O projeto nasceu em 2020 como grupo de trabalho do Banco Central para avaliar a viabilidade de uma moeda digital nacional. Em 2023, começaram os testes com 16 participantes institucionais, sobre a Hyperledger Besu — uma DLT permissionada compatível com contratos inteligentes do Ethereum, escolhida justamente por combinar programabilidade com controle de acesso.

O escopo original era amplo: operações de tokenização imobiliária e de veículos, contratos inteligentes, liquidação programável, e uma nova infraestrutura pública digital para o mercado financeiro brasileiro.

Ao longo de 2024 e 2025, os testes esbarraram consistentemente no mesmo obstáculo. Em agosto de 2025, o Banco Central anunciou que a primeira versão do DREX sairia sem blockchain e sem tokenização nativa. Em 10 de novembro de 2025, a infraestrutura DLT foi formalmente desativada.

A justificativa oficial foi direta: as soluções testadas não atenderam aos requisitos de privacidade e sigilo bancário exigidos pelo sistema financeiro. A equipe avaliou seis soluções diferentes de privacidade durante os testes, e nenhuma satisfez integralmente os critérios.

O Problema da "Caixa de Vidro"

A coordenação técnica do projeto sintetizou o impasse de forma direta: a blockchain funciona como uma caixa de vidro — e uma caixa de vidro é inadequada para dados sensíveis sujeitos à LGPD e à Lei do Sigilo Bancário.

Essa metáfora resume uma tensão técnica que não é exclusiva do DREX e que qualquer projeto corporativo vai enfrentar:

Blockchain resolve confiança distribuída replicando o registro entre participantes. É exatamente essa replicação que gera a imutabilidade e a auditabilidade que tornam a tecnologia atraente. Mas replicar o registro significa que os dados estão, em alguma forma, disponíveis para os validadores.

Existem soluções criptográficas para isso — provas de conhecimento zero (ZKP), canais privados, criptografia homomórfica, contas segregadas. O DREX testou várias. O problema não foi ausência de solução, e sim que nenhuma atingiu simultaneamente os três requisitos que o sistema financeiro exige: privacidade forte, programabilidade completa e componibilidade entre aplicações.

Resolver dois desses três é viável hoje. Os três juntos, em escala de sistema financeiro nacional e sob LGPD, ainda não.

As Três Perguntas Que o DREX Deveria Ter Respondido Antes

O aprendizado mais transferível do caso não é técnico — é de sequenciamento. O BC escolheu a tecnologia em 2023 e passou dois anos tentando adequá-la aos casos de uso. Na nova fase, inverteu deliberadamente a ordem: primeiro define os casos de uso, depois escolhe a arquitetura, com o que o próprio BC chamou de abordagem agnóstica de tecnologia.

Para uma empresa avaliando blockchain permissionada, isso se traduz em três perguntas que precisam ser respondidas antes de qualquer prova de conceito:

  1. Que dados vão trafegar, e sob qual regime legal?
    Se os dados são pessoais (LGPD), sigilosos (bancário, médico, fiscal) ou concorrencialmente sensíveis, a arquitetura precisa resolver privacidade antes de qualquer outra coisa. Não é um requisito que se adiciona depois — é o que determina se a tecnologia é viável para o caso.
  2. O problema real é de confiança entre partes, ou de integração de sistemas?
    Blockchain resolve o primeiro. Para o segundo, um banco de dados compartilhado com boa governança de API costuma ser mais barato, mais rápido e mais fácil de manter. A maioria dos projetos corporativos que fracassam confunde os dois — e o próprio DREX, na nova fase, foca justamente em interoperabilidade e reconciliação, um problema de integração.
  3. Quantas partes precisam validar, e elas confiam umas nas outras?
    Se a resposta é "uma empresa só" ou "duas empresas que já têm contrato entre si", a justificativa para blockchain permissionada enfraquece consideravelmente. O valor da tecnologia cresce com o número de partes que precisam compartilhar um registro sem confiar plenamente umas nas outras.

Quando Blockchain Permissionada Faz Sentido

Nada disso significa que a tecnologia não tem aplicação corporativa. Os cenários onde ela genuinamente entrega valor têm características em comum:

  • Múltiplas organizações independentes compartilhando um registro que nenhuma delas controla sozinha — consórcios setoriais, cadeias de suprimento com vários elos, redes de rastreabilidade.
  • Necessidade de auditoria por terceiros — reguladores, auditores externos ou contrapartes que precisam verificar o histórico sem depender da palavra de quem o mantém.
  • Dados que podem ser compartilhados entre os participantes ou cuja sensibilidade é gerenciável com hashes e referências off-chain, mantendo o dado sensível fora da rede.
  • Processos com disputas frequentes sobre "quem fez o quê e quando" — onde o custo de reconciliação e resolução de conflitos já é alto.

Setores onde esses critérios costumam se alinhar no Brasil: rastreabilidade agroindustrial, certificação de origem, registros de garantias entre instituições, e cadeias logísticas com múltiplos operadores.

Quando Não Faz Sentido

Esta é a parte que fornecedores raramente escrevem, e que o caso DREX torna difícil de ignorar:

  • Quando os dados são sensíveis e a privacidade é requisito absoluto: Foi exatamente aqui que o DREX travou, com recursos que superam os de praticamente qualquer empresa brasileira.
  • Quando existe uma única organização controlando tudo: Uma rede permissionada operada por um único participante é, funcionalmente, um banco de dados com passos extras — e com custo de manutenção maior.
  • Quando o objetivo real é modernizar integração entre sistemas: APIs bem projetadas resolvem isso com uma fração do custo e do risco.
  • Quando o projeto precisa entregar valor em prazo curto: O DREX levou dois anos para concluir que a arquitetura não atendia. Projetos corporativos raramente têm esse fôlego.

O Que Mudou no Mercado Brasileiro Depois do DREX

O desligamento teve efeito prático sobre os consórcios que investediram infraestrutura no piloto e precisaram reavaliar seus modelos. Mas o efeito mais duradouro foi sobre o discurso: ficou consideravelmente mais difícil vender blockchain corporativa no Brasil sem responder à pergunta "e o que aconteceu com o DREX?".

Isso é saudável. Força uma conversa mais honesta sobre onde a tecnologia entrega e onde não entrega.

Vale registrar também o que não mudou: a tokenização de ativos reais (RWA) no Brasil seguiu crescendo em paralelo, com R$ 1,506 bilhão em emissões apenas em janeiro de 2026, operando majoritariamente sobre a Resolução CVM 88 e redes públicas. Ou seja — o obstáculo não foi "blockchain não funciona". Foi uma arquitetura específica, para um caso de uso específico, sob requisitos regulatórios específicos.

E o próprio Banco Central indicou que o objetivo de uma rede com ativos tokenizados permanece; o que mudou foi o entendimento de que existem outros caminhos tecnológicos para chegar lá.

Perguntas Frequentes

  • O que é blockchain permissionada?
    É uma rede blockchain em que apenas participantes autorizados podem acessar dados, validar transações e operar nós. Diferente de redes públicas como Bitcoin ou Ethereum, o acesso é controlado por um grupo definido de participantes.
  • Qual a diferença entre blockchain permissionada e blockchain privada?
    Os termos são frequentemente usados como sinônimos. Na prática, "permissionada" descreve o controle de acesso, enquanto "privada" costuma indicar que uma única organização controla a rede. Uma rede pode ser permissionada e ter vários participantes independentes — o caso mais comum em consórcios setoriais.
  • Por que o DREX abandonou a blockchain?
    O Banco Central desligou a infraestrutura de registro distribuído em novembro de 2025 porque as soluções testadas não atenderam aos requisitos de privacidade e sigilo bancário do sistema financeiro brasileiro. O projeto continua ativo com arquitetura tecnológica a definir.
  • Blockchain é compatível com a LGPD?
    Depende inteiramente da arquitetura. A imutabilidade da blockchain conflita com direitos como o de retificação e eliminação previstos na LGPD. Arquiteturas viáveis geralmente mantêm dados pessoais off-chain, registrando apenas hashes ou referências na rede — mas isso reduz parte dos benefícios que motivam o uso da tecnologia.
  • Blockchain permissionada ainda vale a pena para empresas?
    Sim, em cenários específicos: múltiplas organizações independentes compartilhando um registro, necessidade de auditoria por terceiros, e dados cuja sensibilidade seja gerenciável. Não vale quando há uma única organização controlando tudo, quando o problema real é integração de sistemas, ou quando privacidade absoluta é requisito.
  • O DREX vai voltar a usar blockchain?
    O Banco Central não descartou a tecnologia para fases futuras, mas adotou uma abordagem agnóstica: definir primeiro os casos de uso e depois escolher a arquitetura. A fase prevista para 2026 foca em reconciliação de garantias de crédito.

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Ricardo ZagoRZ

Ricardo Zago

Consultor e Co-fundador da Avalon Blockchain Consulting · Professor de Blockchain na FIAP · Mentor de Startups

Ricardo Zago atua na estruturação de negócios em blockchain, tokenização de ativos reais e stablecoins para o mercado corporativo. Desenvolve projetos na interseção entre mercados tradicionais e infraestrutura descentralizada, com foco em viabilidade regulatória e geração de resultado para empresas brasileiras.

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