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07 de julho de 2026EstratégiaRicardo Zago9 min

Tokenização de Ativos no Brasil em 2026: Por Que o Mercado Cresceu Mais de 1.000% (e o Que Isso Significa Para Sua Empresa)

Pontos Chave

  • Crescimento Exponencial: Emissões mensais saltaram de R$ 122 milhões em janeiro de 2025 para R$ 1,506 bilhão em janeiro de 2026, uma expansão de 1.134%.
  • Infraestrutura de Crédito: O mercado é dominado por ativos reais (RWA) de crédito tradicional, como CCBs, CPRs, debêntures e duplicatas, e não por criptoativos especulativos.
  • Rota Regulatória Eficiente: A CVM 88 (crowdfunding) consolidou-se como a principal avenida para ofertas ágeis de tokenização, com atualizações específicas pautadas pela CVM para 2026.
  • Eficiência Operacional: Os ganhos imediatos residem na redução drástica de intermediários e custos de reconciliação, viabilizando liquidação veloz e fracionamento de ativos.

1. O Que é Tokenização de Ativos, Na Prática

Tokenização de ativos é o processo de representar direitos econômicos ou de propriedade — uma dívida, um recebível, uma cota de fundo, um imóvel — por meio de um token registrado em uma infraestrutura digital programável, normalmente uma blockchain.

Isso não significa simplesmente "colocar um ativo na blockchain". Na prática, envolve reestruturar o ciclo de vida inteiro desse ativo: emissão, transferência, liquidação e as regras de compliance que regem cada uma dessas etapas passam a ser parte do próprio sistema, não um processo paralelo feito em planilhas e cartórios.

O ganho central está na liquidação. O modelo tradicional de mercado de capitais opera com prazos como D+1 ou D+2 e depende de múltiplos intermediários fazendo reconciliação manual. Com tokenização, é possível programar entrega e pagamento praticamente simultâneos, reduzindo fricção operacional e abrindo espaço para fracionamento — ou seja, permitir que ativos antes restritos a grandes investidores institucionais sejam divididos em partes menores e acessíveis.

Entender essa distinção é importante: tokenização não é um produto financeiro, é uma infraestrutura. O que muda é o trilho pelo qual ativos existentes trafegam — com mais velocidade, menos intermediários e maior capacidade de programação de regras.

2. Os Números Que Comprovam a Virada em 2026

O salto de janeiro de 2026 não foi um evento isolado. A trajetória ao longo dos últimos dois anos mostra uma curva de crescimento consistente:

  • Final de 2023: A CVM reconhece a possibilidade de emissão de tokens representativos de certificados de recebíveis. O mercado tem seu primeiro enquadramento regulatório claro.
  • Final de 2025: O volume acumulado de ativos tokenizados no Brasil chega a cerca de R$ 4 bilhões — um crescimento de vinte vezes em dois anos, segundo dados do setor.
  • Janeiro de 2026: R$ 1,506 bilhão emitido em um único mês, novo recorde histórico.
  • Abril de 2026: O volume acumulado se aproximava de R$ 6 bilhões, segundo o RWA Monitor.

Para ter uma referência de escala: as emissões de dívida pelo modelo tradicional somaram R$ 544,8 bilhões em 2025, segundo a Anbima. A tokenização ainda representa uma fração pequena desse mercado — mas com uma trajetória de expansão que o mercado tradicional jamais apresentou em dois anos.

Um detalhe estrutural importante: o volume ainda é altamente concentrado em poucos operadores. Isso carrega duas leituras simultâneas — é sinal de maturidade (a tecnologia já roda em escala real, com bilhões processados) e é sinal de oportunidade (o mercado não foi distribuído entre muitos players ainda, e há espaço aberto para novos entrantes bem estruturados).

Mercados com crescimento de quatro dígitos e alta concentração são exatamente a janela em que empresas com lastro real e estrutura técnica consistente conseguem se posicionar antes da consolidação.

3. Por Que a CVM Está Acelerando Esse Mercado

Praticamente todas as emissões públicas de tokenização no Brasil hoje acontecem sob a Resolução CVM 88, uma norma originalmente pensada para regular plataformas de crowdfunding de investimento. Não existe, ainda, uma lei brasileira específica para títulos tokenizados — o mercado cresceu aproveitando esse enquadramento, que se mostrou, na prática, mais ágil que o modelo tradicional de oferta pública (regido pela Resolução CVM 160).

Essa rota pragmática funcionou tão bem que a própria CVM colocou a tokenização como uma das prioridades da sua agenda regulatória para 2026. Já existe discussão pública sobre ajustes na CVM 88 especificamente voltados à tokenização imobiliária, o que sinaliza que o regulador está tentando formalizar — e não frear — esse movimento.

É um padrão que já vimos em outras frentes de ativos digitais no Brasil: o mercado avança primeiro dentro de um enquadramento razoável, e o regulador ajusta depois com precisão cirúrgica, em vez de criar uma lei nova do zero. Para quem opera no setor, isso é positivo — significa que as regras do jogo estão sendo escritas com participação do mercado, não contra ele.

A diferença prática entre as duas rotas regulatórias também importa para quem está avaliando entrar. Pela CVM 88, o processo é mais ágil e com menos exigências operacionais. Pela CVM 160, o enquadramento é mais robusto mas também mais pesado. A escolha entre os dois caminhos depende do perfil do ativo, do volume pretendido e do público-alvo da emissão.

4. Onde a Tokenização Já Está Acontecendo

Os instrumentos tokenizados em 2026 não são, em sua maioria, criptoativos especulativos — são versões digitais de instrumentos de crédito que já existem há décadas no mercado brasileiro. Em janeiro de 2026, as emissões registradas sob a CVM 88 incluíram:

  • CCBs (Cédulas de Crédito Bancário) — título de dívida entre credor e devedor
  • CPRs (Cédulas de Produto Rural) — instrumento tradicional do agronegócio
  • Debêntures tokenizadas — dívida corporativa de médio e longo prazo
  • Duplicatas e notas comerciais — recebíveis de operações comerciais
  • Recebíveis de cartão — fluxos futuros de pagamento
  • Renda variável digital — participações societárias estruturadas digitalmente

O agronegócio tem se mostrado um dos setores mais maduros para tokenização no Brasil — não por modismo, mas por razões estruturais. Já existe uma cultura consolidada de instrumentos de crédito rural como CPR e CCB que se adaptam naturalmente a um registro digital com rastreabilidade de ponta a ponta. O produtor emite, o comprador rastreia, o credor tem visibilidade em tempo real sobre o lastro. Isso tem valor concreto para todos os lados da operação.

O mercado de capitais avança num ritmo diferente. As emissões de debêntures no Brasil seguem, em grande parte, o mesmo modelo operacional de décadas. A tokenização está entrando por essa frente, mas com mais atrito do que no crédito rural — justamente porque o mercado incumbente é mais conservador.

Além das emissões públicas, existem operações privadas — feitas diretamente entre emissores e compradores qualificados, sem regime de oferta pública. Esse segmento ainda é pequeno em volume, mas cresce como estrutura mais ágil para negociações entre partes que já se conhecem.

Há também um modelo B2B que começa a ganhar escala: empresas que, em vez de tokenizar ativos próprios, oferecem a infraestrutura de tokenização para que bancos, gestoras e plataformas criem produtos sob medida para seus clientes. O usuário final usa um produto financeiro estruturado — sem necessariamente saber que o trilho por baixo é blockchain.

5. Os Obstáculos Que Ainda Travam a Adoção

É tentador olhar para uma curva de quatro dígitos e concluir que os problemas foram resolvidos. Não foram. O mercado cresceu dentro das suas limitações atuais — e entendê-las é tão importante quanto entender o crescimento.

O token não é o ativo. O ativo continua existindo fora da blockchain. O token representa esse ativo, mas não o substitui. Isso significa que, nas operações estruturadas dentro do modelo tradicional, o uso de blockchain ainda não gera retorno adicional para o investidor — o risco, os custos e os intermediários essencialmente permanecem os mesmos. O ganho está mais na eficiência operacional do emissor do que na rentabilidade do investidor final.

A "perna do dinheiro" ainda está faltando. Especialistas do setor usam esse termo para descrever uma limitação central: para que a tokenização entregue seu potencial máximo, a parte financeira da transação também precisa acontecer on-chain — via depósitos tokenizados, stablecoins reguladas ou moeda digital de banco central. Sem isso, a tokenização resolve o registro do ativo, mas não a liquidação financeira. Metade do problema.

Interoperabilidade é um desafio real. Cada plataforma de tokenização opera, hoje, de forma relativamente isolada. Um token emitido em uma infraestrutura não é automaticamente reconhecido ou negociável em outra. Isso cria fragmentação de liquidez — o oposto do que o mercado precisa para escalar.

Segurança jurídica ainda tem pontos cegos. Contratos inteligentes são código — e código tem bugs. A titularidade legal de um ativo tokenizado em caso de falência do emissor, disputas contratuais ou falhas técnicas ainda é território com jurisprudência escassa no Brasil. Quem entra nesse mercado precisa de estrutura jurídica cuidadosa, não só tecnológica.

6. O Papel do Capital Internacional

O Brasil não está nessa sozinho. O interesse global em ativos reais tokenizados — os chamados RWAs (Real World Assets) — vem crescendo em todas as geografias, puxado por gestoras institucionais que enxergam na tokenização uma forma de reduzir custos operacionais, ampliar acesso e aumentar a eficiência de liquidação. Gestoras entre as maiores do mundo já defendem publicamente essa tese como parte de suas estratégias de modernização de portfólio.

Projeções de consultorias internacionais apontam que o mercado global de ativos tokenizados pode chegar à casa dos trilhões de dólares até 2030 — ainda que hoje represente uma parcela pequena do sistema financeiro mundial. Esse número importa para o Brasil porque uma parte crescente desse apetite global vai buscar ativos com lastro real em mercados emergentes, e o Brasil tem dois dos ingredientes mais valorizados nesse contexto: agronegócio com escala e crédito privado com retorno competitivo.

O segmento de stablecoins também cresce em paralelo, como infraestrutura de liquidação. Uma stablecoin regulada atrelada ao real, por exemplo, resolveria parcialmente o problema da "perna do dinheiro" — permitindo que a liquidação financeira também aconteça on-chain, e não só o registro do ativo. Esse é um dos movimentos que o mercado acompanha com mais atenção para os próximos trimestres.

7. O Que Isso Significa Para Empresas Brasileiras

Para uma empresa que origina crédito, opera no agronegócio, atua com recebíveis ou securitização, o momento atual tem uma característica específica: o enquadramento regulatório já existe e já foi testado em escala — o que reduz parte da incerteza jurídica que existia há dois ou três anos. Ao mesmo tempo, o mercado ainda está longe de saturado, com espaço real para novos entrantes bem estruturados.

Isso não quer dizer que qualquer empresa deva tokenizar qualquer ativo. As perguntas que realmente importam antes de avançar são:

  • O ativo tem fluxo de caixa ou lastro claro o suficiente para ser representado digitalmente?
  • Existe demanda real de investidores por esse tipo de instrumento fracionado?
  • A estrutura de emissão consegue rodar dentro da CVM 88, ou vai exigir um enquadramento mais complexo e custoso?
  • A empresa tem capacidade técnica para operar essa infraestrutura com segurança, ou vai depender completamente de um parceiro externo?

A diferença entre empresas que vão capturar valor nesse mercado e as que vão apenas experimentar sem resultado está, em grande parte, na qualidade do diagnóstico inicial — antes de qualquer decisão tecnológica ou de go-to-market.

8. Como Dar o Primeiro Passo

Antes de qualquer decisão sobre tokenizar um ativo, o caminho mais seguro é entender, de forma técnica e honesta, se o modelo de negócio da sua empresa realmente se beneficia dessa estrutura — e qual o enquadramento regulatório mais adequado para o caso específico.

A Avalon acompanha esse mercado desde o início da sua formalização regulatória no Brasil e trabalha com empresas de crédito, agronegócio e mercado de capitais para transformar blockchain em área de negócio estruturada — não em projeto piloto sem continuidade.

Se sua empresa está avaliando entrar nesse mercado como emissora, como plataforma ou como parceira de um projeto de tokenização, o primeiro passo é um diagnóstico técnico estruturado. Fale com a equipe Avalon.

9. Perguntas Frequentes Sobre Tokenização de Ativos

  • O que é tokenização de ativos?
    É o processo de representar um direito econômico ou de propriedade — como um recebível, uma dívida ou uma cota de fundo — através de um token registrado em blockchain, permitindo fracionamento, maior liquidez e liquidação programável.
  • Tokenização de ativos é regulamentada no Brasil?
    Não existe ainda uma lei específica para títulos tokenizados no Brasil. Na prática, quase todas as emissões públicas acontecem sob a Resolução CVM 88, originalmente criada para crowdfunding de investimento. A CVM já colocou o tema como prioridade da sua agenda regulatória para 2026.
  • Tokenização de ativos é o mesmo que criptomoeda?
    Não. A grande maioria dos ativos tokenizados no Brasil hoje são versões digitais de instrumentos de crédito tradicionais — CCBs, CPRs, debêntures, notas comerciais. O token representa um ativo com lastro real, não uma moeda digital especulativa.
  • Quais tipos de ativos podem ser tokenizados?
    Os mais comuns no Brasil são instrumentos de crédito (CCB, CPR, debêntures, notas comerciais, duplicatas), recebíveis de cartão e, em menor escala, participações societárias e imóveis.
  • Qual a diferença entre CVM 88 e CVM 160 para tokenização?
    A CVM 88 regula plataformas de crowdfunding e é o enquadramento mais ágil e acessível para emissões tokenizadas hoje. A CVM 160 segue o modelo tradicional de oferta pública, com mais exigências operacionais e regulatórias. A escolha entre os dois depende do perfil do ativo e do volume pretendido.
  • Como uma empresa pode começar a tokenizar ativos no Brasil?
    O ponto de partida é um diagnóstico técnico e regulatório do ativo e do modelo de negócio. O caminho operacional mais comum passa pela CVM 88, com o apoio de uma plataforma de tokenização credenciada. A estrutura jurídica precisa ser montada antes de qualquer decisão tecnológica.

Sua empresa quer se posicionar no mercado de tokenização de ativos reais (RWA)? Desenhe seu projeto estratégico com a Avalon.

Ricardo ZagoRZ

Ricardo Zago

Consultor e Co-fundador da Avalon Blockchain Consulting · Professor de Blockchain na FIAP · Mentor de Startups

Ricardo Zago atua na estruturação de negócios em blockchain, tokenização de ativos reais e stablecoins para o mercado corporativo. Desenvolve projetos na interseção entre mercados tradicionais e infraestrutura descentralizada, com foco em viabilidade regulatória e geração de resultado para empresas brasileiras.

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